Anseio

26Nov09

Queria ter você aqui do meu lado. Fere por dentro, a navalha.


Silêncio.

Para a vereda lúgubre seguiam os passos
Em ritmo pérfido e traiçoeiro
Na mente os sonhos apagados, no papel
Gravados com o próprio sangue
Confiando na idéia em que cria,
Mais do que nas propostas da própria religião,
De que não era provido apenas do ódio
Que costumava sentir por tudo o que amava
Quando rodeado estava por corpos enlameados
Que imploravam-lhe por carne e infortúnio.
Mas pouco se importava o homem
Em conceder-lhes tudo o que podia
Consagrando cada passo que guiavam-no ao inferno
E limpando as gotas de rubi que corriam sobre a testa
Evitando recordar-se de sua potomania.
Com seu comportamento patológico
Espiava as sombras da madrugada
Enquanto seus passos imundos,
Mais insensatos que o próprio,
Levavam-no ao encontro da insanidade
Para novamente sentir-se saciado.

x

Sim, fui eu quem fiz.


Cartas I

06Set09

Este é meu mundo estranho, esta é a minha mente enferrujada. E aquele é o meu amor, o meu viver. Eu perdi tudo isso, tudo o que poderia chamar de sagrado. Perdi meu sangue e o meu ar. Andei para longe das árvores. Fugi. Fugi dos compromissos e das pessoas. Eu morri, e morri porque quis. Isso é morrer? Sim, ou melhor, quase. É desperdício de vida, entretanto, no meu caso, foi apenas mais uma vida inútil jogada fora.

Eu pequei. Viver sem pecar é o mesmo que viver em um mundo de regras e limitações. Não preciso mais de regras, eu morri. Morri com a faca que eu mesma cravei em meu peito. Fui levada pela tentação de morrer. E cá estou. Não é o céu, nem o inferno. É um vazio absoluto, uma escuridão na qual eu me perdi.

Preciso voltar.
Estava cansada de viver.

Mas agora, estou cansada de morrer.


Lugar distante

06Set09

Vou começar, se apresse
Não é só porque você faz
Que também vou fazer, verdade
A noite passa

No início me esforço,
Mas no fim
Dá na mesma, verdade
Os dias passam

Aos poucos
Abro os meus sentimentos
Se me aproximar
Entenderá melhor!

Te acompanhando
Mesmo que não dê certo
Com passos complicados
É melhor que nada
Não me importando que demore

Posso obrigar
E ter outra pessoa
Mas se não for você
Não me significa nada
Mas você parece estar mais distante!

O seu mundo de mentiras
Que acreditei
Quero apagar
Apagar…


Depois daquilo
No que será que viemos acreditando?
Além do céu noturno
O amanhã já nos espera

Percebendo a voz de alguém
Nós nos encolhemos
Na cerca do parquinho
O vento da noite soprou
Você tentando dizer algo
Puxou esta mão de volta

Isso ainda aperta
A parte mais mole do meu coração

Depois daquilo
No que será que nós viemos acreditando?
Abro a janela
E sinto o cheiro do vento do inverno
Será que a tristeza
É uma coisa que desaparece?
O suspiro ficou branco
E logo depois desapareceu

Eu hesitava com tudo
Exceto sair andando
Pensava que poderia
Acabar com essas formalidades sem graça

O quanto sobrou
Daquelas palavras que soltei a você?
E na parte mais funda do meu coração
Isso continua a dar voltas

Será que estamos
No futuro daquela época?
Nada vai tão bem
Como eu pensava
Desse jeito como será
Que os nossos dias continuarão?
Um céu estrelado sem estrelas
Continua além da janela

Depois daquilo
No que será que nós viemos acreditando?
Além do céu estrelado
O amanhã já nos espera


Pista de um estojo de plástico, música de suicídio.
Um psicopata legal em uma linha vermelha perfeita.

Uma cabeça cheia de palavras mordentes,
Negras pálpebras e lábios,
A escuridão curativa é meu lugar.
Eu escrevo com uma espada ausente,
Como um alívio para a boca que não contém nenhuma mentira
Eu até esqueço as palavras, não esqueço?
Passatempo instável.

Isto corrói em seu cérebro.
Mente invejosa e arrepios anormais.
Isto corrói em seu cérebro.
Mente invejosa e a tenacidade do propósito.

Triste brincadeira afiada.
Um dia tão frio.

Grite a si mesmo,
Drene a si mesmo,
Não se esquecendo de ansiar pela liberdade.
Grite a si mesmo,
Grite sua dor,
Sem esconder seus “eus”.

Vejo no vermelho, enquanto acordo. Te sinto perto de mim.

O som repetitivo das páginas drogadas.
Eu dou esta expressão facial de um profundo beijo rasgada em pedaços
“Cubra seu amor com uma máscara, eu juro para a vida toda
Eu não estarei totalmente misturado ao desespero”.
Melancolia e brincadeiras afiadas
Então, não totalmente misturado com…

Lenta chuva gelada.
Mesmo o desejo que constantemente repito.
Lenta chuva gelada…
Derrete na solidão.

Não me separe desta mão
Porque o que eu senti tão próximo certamente
Foi todo o “você” na carta.
Lenta chuva gelada…
Isto avança na face.

Não é possível escapar.

Pista de um estojo de plástico, música de suicídio.
Um psicopata legal em uma perfeita linha vermelha.
Seus pensamentos caem doentes como uma imitação
“Então, uma espinha dorsal que se derrete em um frenesi”
Melancolia e brincadeiras afiadas
“A espinha dorsal que é torta que nem isto”.

Para um futuro não desejado
Quero que aquele dia…
Eu jurei a “você”.
Uma vida inteira está em um momento
Para uma mudança não desejada.
Um ideal posto sob pressão
Eu até desejei ter deixado cair uma
Idéia instável.

Com essas mãos que não estão alcançando e esses pés que não dão mais nem um passo para a frente, meus defeitos estão dançando em um jardim quadrado em miniatura.


Demônios

22Ago09

A tesoura ainda estava em cima da cômoda. Procurei meu vestido velho e limpei as marcas em minha pele. Aquelas eram as únicas feridas que não doíam, as únicas que me entendiam. Sai as pressas daquela casa, o lar dos tormentos, prevendo o que iria acontecer. O rosto coberto por lágrimas e o corpo banhado em sangue fizeram meu peito inchar de prazer e meus pés acelerarem. Não tinha mais o controle sobre as minhas ações, não depois do que fiz com ela. Eu realmente havia perdido a consciência.

O suor escorria pelo pescoço e o vento me fazia estremecer. Eu estava correndo. Eu sabia que um dia a insanidade tomaria conta de mim. Era o meu destino, eu não podia mudar. Fechei os olhos em uma falha tentativa de escapar da realidade. Queria apenas fugir dos demônios que me perseguiam. Eles imploravam por sangue e carne, e eu sempre lhes concedia. Tinha virado uma rotina.

Pequenos chuviscos começavam a cair do céu. Meu vestido sujo de vermelho escurecia com cada gota que sobre ele pingava. A mãe natureza chorava junto comigo. O dia não seria como todos os outros, seria o último e mais doloroso. Naquele momento, eu queria tê-la ao meu lado novamente, para que pudéssemos correr juntas até o meu fim, para que minhas lágrimas não fossem em vão.

“Perdoem-me por todos os meus pecados” eu gritava. O calor queimava dentro de minhas veias, estava cada vez mais próxima. Pude sentir o cheiro da lama que se formava no chão úmido, a chuva engrossava cada vez mais. A natureza protestava: todos merecem uma segunda chance. Mas nada mudaria a minha decisão. Se continuasse ali, os demônios me matariam com as próprias mãos. E se eu fosse naquele momento, seria diferente, eu não estaria morrendo por eles, nem por ela. Eu estaria morrendo por mim, não existia motivo mais egoísta, mais perfeito.

Meu pulso ardia, a veia latejava. Minhas pernas começavam a perder a força. A lama cobria meus pés descalços. A ferocidade do vento retardava mais ainda a velocidade dos meus passos. Cada vez mais próxima do final, só que ainda não era possível ver o que me esperava mais a frente. Eu corria cada vez menos, mas continuaria, nem que fosse andando lentamente.

A chuva, agora mais forte, batia contra meu corpo. A natureza ficara mais violenta. Caí de joelhos na lama. Não suportava mais o peso do meu próprio corpo. Meus dedos se fecharam em punho e socaram o chão, mas a falta de força fez com que parecesse apenas um pequeno encostar da mão no solo. O sangue ainda escorria pelo pulso, ao lembrar-me disso, meu corpo se levantou. Não tinha tempo a perder ali.

Fechei mais uma vez os olhos, os demônios apareceram em minha mente. “Traga-nos seu sangue” sussurravam. Então agora era a mim que eles queriam. Era a morte definitiva. Não pude deixar de sorrir, afinal, era a minha vez. Minhas unhas perfuraram o braço enquanto voltava a correr, me causando mais prazer. Lutei contra o galho das árvores que mais pareciam obstáculos imundos. Barreiras que queriam me impedir de poder vê-la novamente e implorar por seu perdão.

O barulho da chuva confundia meus pensamentos. Várias vozes lotavam minha mente. Umas me mandavam seguir, e outras ordenavam que eu voltasse e terminasse o meu trabalho. Matar mais, muito mais, era isso que pediam. Mas a única que deveria morrer ali era eu. As vozes começavam a gritar, tão agudas que já não conseguia escutar mais nada.

Finalmente, as árvores sumiram. A chuva caía tão forte, que era quase impossível ver mais a frente. Faltava pouco. Diminuí os passos e parei diante da paisagem. Estava frente a frente com um penhasco. E nesse penhasco ficaria marcada a minha história. Era lá, meu jazigo. Andei devagar, quase arrastando os pés, até a ponta.

Observei o mar. As ondas agitadas chamavam meu nome e esperavam, era uma tempestade. Na verdade, eram várias. Tempestade de sentimentos, tempestade de pecado, tempestade de vozes, e principalmente, tempestade de insanidades. E todas juntas formavam a que estava acontecendo lá, naquele instante. O sangue pingava no chão, se juntando com a lama. Fui perdendo a força dos músculos. E novamente as lágrimas desceram, era última vez em que eu choraria. Arranquei o terço que até aquele momento estava pendurado em meu pescoço.

“Glória e louvor a ti, Satã, nas alturas do céu em que reinaste…” bati o pé contra o chão, fazendo a lama respingar em minhas pernas e pressionei o terço com mais força. Meus dedos estavam trêmulos e frios.

“E glória, nas negruras do inferno em que sonhas, silencioso e vencido…” bati uma segunda vez, quase perdendo o pouco equilíbrio que me restava. Era possível ver o ar que saía da minha boca, a pequena nuvem de bafo que era destruída pela chuva impetuosa.

“Faz que nesse dia o meu espírito repouse satisfeito, contigo, sob a árvore da ciência, oh, Satã…” bati o pé no chão pela terceira vez, como em um ritual. A tempestade aumentava a cada segundo, como se não só o meu fim estivesse próximo.

“Quando, no moderno templo, os seus ramos se abrirem”. Era o fim. Fechei mais uma vez os olhos, não via mais demônios, e sim um cadáver jogado no chão; no chão do lar dos tormentos. Houve o seu fim, e haveria o meu. Lancei-me na chuva, meu corpo ensangüentado começou a cair. E lá em baixo, o mar ainda me esperava.


Delilah

21Ago09

Você não mudou nada. E talvez jamais mude, é o seu jeito, não é?
Quando pequena, costumava dizer a você para ter cuidado ao selecionar suas companhias. Acho que não adiantou, certo? Porque você está sendo esquecida por todos, vivendo essa vida frívola. Era só uma ilusão, o amor te traiu, ele sempre nos trai. Você deveria ter me escutado naquela madrugada fria em que eu contava para você o quanto o humano pode ser fingido.
Eu entendo sua situação, mas você poderia tê-la evitado. Venha, meu amor, levante desse chão. Venha, eu posso segurar seu coração. Não destrua isso querida. Não morra por ele; não morra por mim.

Oh Deus, Delilah, por quê?
Eu nunca conheci uma garota mais impossível.


Gato

10Ago09

Se eu pudesse escolher um animal para ser, eu seria um gato. Poderia ser um siamês, e ter bastante facilidade em chamar atenção. Ou um siberiano, que confronta o siamês com a forma que demonstra a lealdade aos humanos. Tentaria ser discreta e habilidosa, como um abissínio. E teria a docilidade de um angorá, junto com a resistência de um pêlo curto brasileiro.

Ou eu seria apenas um gato qualquer. Mas de olho cinza, uma cor fria e pura, uma máscara. E nessa máscara eu esconderia toda a verdade sobre mim, ocultaria todas as minhas emoções. Amaria de um jeito diferente, de um jeito em que não fosse necessário provar meus sentimentos. E que isso fosse dito normal, apenas por ser um gato. Apenas um gato.

Entretanto, eu não posso escolher. Terei que me contentar em amar tudo o que puder, para no fim da minha vida não ter que dizer várias mentiras.
Ou apenas uma: eu era um gato, eu nunca amei.


Raigomaru

28Jul09

Quando ele acordou naquela manhã, ouviu um cacarejo. Ele virou e estava Dibeta, ciscando seu alimento no chão. Raigomaru queria dizer que aquela era sua parte, mas ele não disse. Porque ainda tinha muita comida sobrando.

Raigomaru subiu para o topo do penhasco. Era um penhasco bem grande, com quase dez metros de altura. Olhando de lá, tudo parecia pequeno, a comida de Dibeta parecia minúscula.

Agora, vamos voar!

Mesmo sendo isso o que Raigomaru pensava, seu estômago começou a roncar de repente. Então no fim, ele decidiu deixar para voar no outro dia. Amanhã, depois de comer, ele tentaria voar para os céus novamente.

— Raigomaru finalmente percebeu que, na verdade, se ele voar de um penhasco de dez metros de altura, ele não chegaria a lugar algum. Mas ele quer fingir que não sabe disso.

— Por que Raigomaru não encara a realidade?

— Deve ser porque ele está com medo. Ele está com medo de encarar o fato de que ele é apenas uma galinha. Na verdade, Raigomaru sabia desde o começo que não poderia voar.